Inflação abre espaço para novo corte dos juros

Na última sexta-feira, o IBGE divulgou que o IPCA referente ao mês de novembro registrou alta de 0,28%. Novamente, o indicador surpreendeu positivamente, ao ficar abaixo das projeções: GO Associados (+0,38%) e mediana do mercado (+0,35%).  No acumulado em 12 meses o IPCA está em 2,80%.

Os preços dos alimentos no domicílio seguem sendo o principal fator da surpresa baixista nos preços, ao registrar a sétima queda consecutiva, de 0,72%. Em 12 meses, o subgrupo registra deflação de 5,3%.

Por outro lado, como esperado, o grupo habitação apresentou a maior alta no mês, de 1,27%, refletindo as altas dos preços da energia elétrica (+4,2%), do gás de botijão (+1,6%) e das tarifas de água e esgoto (+1,32%). Os combustíveis também apresentaram alta no mês, de 3,1%, refletindo o início da entressafra da cana-de-açúcar e os reajustes da Petrobras para as refinarias.

Os dados do IPCA reforçam o cenário inflacionário favorável, puxado principalmente pela queda dos alimentos. Entretanto, vale destacar que outros grupos, como os itens industriais e os serviços, também seguem em franca desaceleração no acumulado em 12 meses, como pode ser visto no Quadro 1.

Quadro 1: Inflação de Alimentos, Serviços e Industriais – Var. % acum. 12 meses


Fonte: IBGE. Elaboração: GO Associados

A desaceleração da inflação de serviços reforça o tom positivo, pois tal grupo apresentava uma inflação bastante resiliente, em torno de 9,0% ao ano desde meados de 2011 até o fim de 2015. Apenas no início de 2016 passou a recuar e agora está em torno de 4,5%, no centro da meta de inflação.

Em parte, é um reflexo da crise econômica e da elevada ociosidade do mercado de trabalho, mas também da queda das expectativas inflacionárias gerada pela boa condução da política monetária. E a expectativa é que siga em desaceleração, dado que os salários devem apresentar reajustes modestos em 2018. O salário mínimo deve ter alta de apenas 2,0%.

Por outro lado, a principal fonte de pressão tem vindo dos itens administrados, com as altas do preço da energia elétrica, do gás de botijão e da gasolina, como pode ser visto no Quadro 2.

Quadro 2: Inflação dos Administrados – Var. % acum. 12 meses


Fonte: IBGE. Elaboração: GO Associados

Para dezembro, a expectativa é que o IPCA siga baixo, refletindo ainda o comportamento abaixo da sazonalidade do período dos alimentos e a queda do preço da energia elétrica (mudança da bandeira vermelha nível 2 para nível 1).
Por outro lado, gás de botijão e combustíveis devem seguir em alta. As tarifas de passagens aéreas também devem pressionar o índice, assim como os itens de vestuário devido à sazonalidade de fim de ano.

De toda forma, a expectativa é que o IPCA encerre o ano com alta de 2,87%, abaixo do piso da meta de 3,0%, levando o Banco Central a justificar o porquê não cumpriu sua meta de entregar a inflação no intervalo entre 3,0% a 6,0%.
Para 2018, a inflação possui viés de alta, dado que a safra agrícola não será tão farta, mas a princípio não é motivo de preocupação. Os riscos de alta, por ora, continuam nos itens administrados (energia elétrica, combustíveis, ônibus urbano e outros).

Tal cenário reforça a possibilidade de o Copom reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual na reunião de fevereiro, como indicou o órgão no comunicado pós-reunião dessa última semana, que reduziu a Selic em 0,5 ponto, para 7,0% ao ano, a menor taxa da história do país.

Quadro 3: Selic, IPCA e Juro real ex-ante (% ao ano)*

Fonte: BCB e IBGE. Elaboração: GO Associados. * Taxa real de juro ex-ante calculado pela diferença entre a taxa Selic esperada para os próximos 12 meses e a expectativa de inflação para os próximos 12 meses

Dessa forma, a tendência é que a taxa Selic fique estável em torno de 6,75% ao longo de 2018 (ou de boa parte do ano), mantendo os juros reais baixos, em cerca de 3,0% a 3,5% ao ano, ajudando no processo de recuperação da economia.

Entretanto, inflação e juros baixos de forma permanente dependem da continuidade da agenda de reformas. Caso contrário, corremos o risco de voltar a viver em um país com inflação elevada e juros próximos a dois dígitos.

Luiz Fernando Castelli
Economista da GO Associados