Gesner Oliveira: Satisfação enorme ter sido eleito o Economista do Ano.

MEU ÚNICO MÉRITO É ANDAR EM BOA COMPANHIA: 

GESNER OLIVEIRA. [1]
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Agradeço muito a presença e cumprimento a todos na pessoa do Professor Manolo, Presidente da Ordem dos Economistas do Brasil.

Em meio aos desafios da crise econômica atual, tive uma surpresa maravilhosa no plano pessoal e profissional.

A notícia chegou através de um telefonema do nosso Presidente da Ordem, Prof. Manolo, que me avisou que o Conselho da Ordem havia me colocado em uma lista de grandes economistas pelos quais nutro profunda admiração.

Só por ter sido lembrado e incluído na lista, já fiquei lisonjeado!

Quando algumas semanas depois, o Professor Manolo me contou que a votação havia levado à escolha de meu nome para economista do ano ao lado de tantos profissionais ilustres homenageados nesta noite, fiquei ainda mais surpreso! E muito feliz!

Entendo esta honraria como um prêmio por uma única razão que reivindico como mérito pessoal: tenho andado em boa companhia!

Tive a sorte de ter professoras e professores, alunas e alunos, amigas e amigos, sócias e sócios, colegas e clientes brilhantes em várias dimensões da vida.

Aprendi com o tempo a conviver e absorver o máximo de conhecimento de um time, e em algumas oportunidades, consegui montar e coordenar equipes nas quais o valor coletivo é um múltiplo da soma dos valores individuais.

Minha esposa, Gloria, companheira de quase 30 anos me ensina diariamente a ouvir e aprender. Ela me deu o privilégio de aprender e me encantar com meus filhos, Rafael e Gabriel. Juntos, nós três frequentamos a FGV. A Gloria nos supervisiona e cobra a lição de casa!

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A boa companhia decorreu em grande medida das instituições nas quais me engajei em diferentes momentos: na Fea-Usp e na Fipe desde os tempos de graduação;  no mestrado da Unicamp onde fui orientado pelo então professor e atual Chanceler José Serra; na Eaesp-FGV onde leciono desde 1990; no Cebrap;  na Folha; na Universidade da California, em Berkeley, onde fui orientado pelo Prof. Albert Fishlow; no Ministério da Fazenda, no Cade, na Tendências, no CIEE representado pelo seu presidente Dr. Bertelli; na Sabesp, onde revi velhos amigos e fiz novos amigos; e no grupo de tantos talentos formado pela GO Associados.

Vejam que tive a sorte da boa companhia. Nestas instituições aprendi que o economista é mais útil quando deixa a soberba da profissão e entende a natureza multidisciplinar dos problemas do mundo real.

Tive a sorte de aprender desde cedo no Cebrap a importância da multidisciplinaridade e da integração da economia com as ciências sociais.

Alguns anos mais tarde, verifiquei na prática do Cade que o diálogo entre o Direito e a Economia é fundamental. Sem essa interação, inaugurada por nomes como Richard Posner, mas que só agora avança em países com a tradição do Direito Romano, é impossível desenhar incentivos adequados para a concorrência, o investimento e a inovação, que, em última análise, são os motores do desenvolvimento.

A lógica econômica dos acordos de leniência e da delação premiada, termos que ficaram mais conhecidos depois da Lava Jato, é comum no antitruste internacional há algumas décadas e nos processos do Cade há mais de uma década.

Por sua vez, a Estatística e a Econometria aplicáveis ao volume sem precedentes de tráfego de dados na internet e ao aumento igualmente exponencial de capacidade de processamento – chamado de “big data” – abrem novos horizontes para diferentes áreas do conhecimento, desde o marketing , a inteligência de mercado até a jurimetria.

Se o diálogo entre o Direito e a Economia foi descoberto há mais tempo, aquele entre a Economia e a Psicologia é mais recente, mas já revolucionou o entendimento dos processos de decisão em situações de incerteza na esteira das contribuições de Daniel Kahneman e Vernon Smith.

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Tive o privilégio de dirigir uma das maiores empresas de água do mundo, a Sabesp, onde percebi a importância de equipes multidisciplinares mais amplas, nas quais as várias engenharias e diversas ciências da natureza interagem com a Economia e o Direito para gerar projetos nas suas dimensões técnica, econômico-financeira e legal.

O tema da água me levou de volta à Economia do Meio Ambiente com a qual havia tido contato como monitor na FEA-USP nos anos setenta, mas que por imaturidade não prossegui. Estava tão absorvido pelo debate de política econômica do regime militar e enfeitiçado pela economia política do marxismo, que deixei de lado – erroneamente – a dimensão fundamental da sustentabilidade. Durante muitos anos tive vergonha de um texto que escrevi sobre economia do meio ambiente em 1976 e do qual hoje me orgulho.

Tenho a sorte de fazer parte do Grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. E de trabalhar em uma consultoria, a GO Associados, cuja marca é a multidisciplinaridade.

A justa meta de inclusão social foi confundida no Brasil com o estímulo a um ciclo insustentável de consumo desenfreado, sem nenhuma atenção à infraestrutura social necessária para elevar de fato a qualidade de vida das pessoas.

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A tragédia do saneamento brasileiro ilustra bem o atraso na área da sustentabilidade.

Chama atenção a negligência com que o tema da água tem sido tratado no mundo e no Brasil. Se a Região Sudeste e a Região Metropolitana de São Paulo em particular, não tivessem enfrentado uma das mais severas estiagens em mais de meio século, o problema da falta de água não teria sequer entrado na agenda do debate nacional.

Embora a situação crítica de São Paulo tenha sido contornada, a crise hídrica não terminou. A tragédia do saneamento brasileiro persiste.

Basta dizer que metade da população brasileira não tem coleta de esgoto; mais da metade do esgoto gerado não é tratado; perde-se, em média, 37% da água produzida e distribuída e, em algumas regiões, esta perda atinge mais de 50%; em algumas capitais, mais de 60%!

Não basta garantir raias limpas para uma prova de vela nas Olimpíadas. É preciso despoluir a Baía da Guanabara.

Contrariando os princípios básicos de finanças públicas, um setor como o de saneamento com elevadas externalidades positivas é sobretaxado no Brasil.

Mantido o atual nível de expansão dos investimentos, o Brasil só terá universalização dos serviços de água e esgoto em 2052!

Daí a importância de regulamentar a Lei 13.329/16, sancionada pelo Presidente Temer em 01 de agosto, que permite desonerar de PIS/Cofins o aumento de investimento em saneamento.

Além da sobretaxação, prevalece o populismo do preço da água. As tarifas não remuneram os serviços e o investimento. Os brasileiros gastam 3 vezes mais com celular e internet do que com água e esgoto.

Considerando a tarifa média da água reportada no último informe do SNISS do Ministério das Cidades, são necessários 67 litros de água para comprar uma caixinha de chiclete e quase 800 litros de água tratada na rede pública para adquirir uma garrafa pet de meio litro de água!

É preciso colocar um fim neste populismo da água, na sobretaxação do saneamento e promover um salto de gestão e investimento nas empresas. Investir em saneamento é investir em saúde.

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2015 e 2016 têm sido anos difíceis para a economia brasileira. É a maior recessão que o país vivenciou desde os anos trinta e a primeira que vivemos – meus sócios, colaboradores e eu – como empreendedores. Aprendemos muito, acadêmica e empresarialmente. Tempos de crise são pedagógicos.

O entendimento da atual crise econômica crise exige uma visão multidisciplinar na qual a interação entre a Economia e a Política é essencial.

Embora persistam as incertezas no plano da política, a economia dá mostras de melhora. O pânico terminou. A economia chegou no fundo do poço. Ao contrário do que previam os mais pessimistas, não há um alçapão no fundo do poço.

A questão é como voltar à superfície. A recuperação terá de ser diferente daquela de 2009/10: será mais lenta e baseada no investimento e não no consumo.

O ajuste das contas públicas é uma condição necessária, mas não suficiente. Será preciso resistir à tentação de mais uma elevação de impostos em um país onde o setor produtivo é asfixiado por uma carga tributária pelo menos 10 pontos percentuais do PIB mais alta do que aquela que corresponderia ao nosso nível de renda por habitante.

Dentre outras medidas, a aprovação da PEC de limitação de gasto e o aumento da idade mínima para aposentadoria são essenciais para começar a reequilibrar as contas públicas.

O ajuste fiscal é necessário, mas não suficiente. É necessário resistir a uma outra tentação frequente no Brasil de reduzir a inflação pela apreciação da taxa de câmbio.

O câmbio competitivo não vem por decreto. Resulta de uma combinação adequada de corte de gastos e redução dos juros, aliado a uma política agressiva de conquista de mercados para nossos produtos e serviços.

Apenas dessa forma, será possível continuar a reação das contas externas. Em menos de três anos o Brasil passou de um déficit comercial de US$ 4,1 bilhões em 2014 para um saldo projetado em mais de US$ 50 bilhões em 2016. Grande parte dessa virada se deveu à depreciação do Real e à queda da demanda por importações por conta da recessão. Para manter o equilíbrio externo é preciso aumentar a competitividade de forma mais duradoura através do aumento da produtividade.

A variável chave para a retomada é o investimento e particularmente o investimento em infraestrutura que no Brasil chega a pouco mais de 2% do PIB contra 4,7% na India e 8,5% na China.

Para tanto, três coisas são necessárias. Primeiro, mais dinheiro, que terá de vir do mercado privado e não dos bancos públicos, cujos empréstimos subsidiados pelo Tesouro já chegaram a um limite.

Para que isso ocorra serão necessários mecanismos para atrair recursos de fundos de poupança para os projetos de infraestrutura. Isso exige um aprimoramento das debêntures de infraestrutura, permitindo participação nos lucros das SPEs que levarem a cabo as Parcerias Público-Privadas.

Segundo, garantias adequadas para os investidores.

Terceiro, segurança jurídica, regras estáveis, transparência e respeito às regras da concorrência nos mercados e especialmente nas licitações públicas. Para assegurar isso são necessárias agências reguladoras independentes e com excelência técnica.

É necessário derivar lições da crise atual. É necessário promover um salto de governança nas empresas públicas e nas empresas privadas para o que os programas de compliance são essenciais.

É urgente modernizar as relações de trabalho, como a legislação trabalhista, de forma a criar um ambiente propício ao empreendedorismo e dar um basta ao corporativismo.

A economia da regulação, por sua vez, nos ajuda a entender a necessidade de tornar a regulação minimalista e pró-concorrencial. Nunca foi tão importante evitar o excesso de intervenção. Nunca foi tão importante imprimir maior velocidade à adaptação regulatória, em um momento no qual as fronteiras dos mercados estão sendo redefinidas por inovações disruptivas.

O Brasil precisa se tornar um ambiente propício ao surgimento de start ups que introduzem novos modelos de negócios, reduzem custos e impulsionam a inovação.

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A Economia nos ajuda a contribuir neste debate. A Ordem dos Economistas tem sido fundamental neste diálogo com a sociedade.

Aprendi a importância de o economista dialogar com a sociedade. Abolir o economês em troca de uma linguagem mais clara e objetiva, capaz de explicitar as escolhas em nosso cotidiano. Aprendi muito quando fui colaborei com a Folha. Continuo aprendendo bcomo colunista na Radio Bandeirantes.

Mas o recado da Economia só é útil quando integrado a tantas outras ciências em uma perspectiva multidisciplinar. E sempre pautado por valores e pela ética profissional.

 Muito obrigado à Ordem dos Economistas por este prêmio que representa enorme estímulo à boa prática e à ética na Economia. Obrigado a todos Vocês pela atenção e carinho nesta noite.

Muito obrigado por me permitir caminhar com Vocês! Impossível imaginar melhor companhia!

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[1] Discurso de agradecimento pelo prêmio de Economista do Ano de 2016 conferido pela Ordem dos Economistas do Brasil em 15/08/16.

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